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	<title>Homem.org&#187; Ficção Verdadeira</title>
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	<description>Onde os homens são homens.</description>
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		<title>Hora do café</title>
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		<pubDate>Tue, 25 Nov 2008 08:42:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Nunes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção Verdadeira]]></category>
		<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[mulher]]></category>
		<category><![CDATA[sinceridade]]></category>

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		<description><![CDATA[- Um café, por favor. E corrigiu: - Um expresso! Escolheu uma das mesinhas vazias, sentou-se mal e mal na banqueta. Sentia-se incomodado sobre aquela torre balançante, a base fina simplesmente não lhe inspirava confiança. Mantinha o pé esquerdo no chão, por via das dúvidas. Tirou da pasta que trazia a tiracolo um jornal muito [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>- Um café, por favor.</p>
<p>E corrigiu:</p>
<p>- Um expresso!</p>
<p>Escolheu uma das mesinhas vazias, sentou-se mal e mal na banqueta. Sentia-se incomodado sobre aquela torre balançante, a base fina simplesmente não lhe inspirava confiança. Mantinha o pé esquerdo no chão, por via das dúvidas.<br />
Tirou da pasta que trazia a tiracolo um jornal muito dobrado e pôs-se a ler, cotovelo apoiado na mesa, queixo apoiado na mão, resmungando qualquer coisa de tempos em tempos. O café chegou. Ele agradeceu a moça que trouxe e voltou a atenção para o jornal. Sem tirar os olhos da folha, sacou do bolso da camisa um maço de cigarros, tirou um com a boca e, enquanto tateava as calças em busca do isqueiro, cruzou olhares com uma garçonete mais velha, que parecia ser responsável pelo lugar. Com o cigarro pendendo no canto da boca, fez cara de criança surpreendida no meio de qualquer arte. Perguntou, sem-jeito:</p>
<p>- Não pode, né?</p>
<p>Ela meneou a cabeça, ainda mais sem-jeito, talvez por ter que negar a um cliente um prazer que não incomodaria ninguém – o lugar estava praticamente vazio, havia apenas um casal numa mesa suficientemente afastada, que sequer parecia notar a presença do homem, e uma moça, também distante, que o observava com certa ansiedade.</p>
<p>- Não pode, moço, tem aquela lei que proíbe. Eu também fico doida por um cigarrinho entre um café e outro, mas fazer o quê? Se aparecer um fiscal aqui, é multa na hora.</p>
<p>Sorriram um para o outro com ar tristonho, como quem identifica um cúmplice que cumpre pena na cela ao lado. Ela voltou ao que quer que estivesse fazendo, ele deixou de procurar o isqueiro. O cigarro permaneceu na boca, como estava, apagado, meio caído, ameaçando jogar-se no café. Qual suicida que, diante da impossibilidade de cumprir seu destino, preferisse morrer.<br />
A moça, aquela que o analisava ansiosamente à distância, veio até ele. Chegando por trás, disse com uma voz que destilava o venenoso desprezo da mulher traída:</p>
<p>- Olha só quem resolveu aparecer!</p>
<p>Ele a olhou com surpresa. O cigarro efetivamente caiu, errou o café por pouco. Nenhum dos dois se deu conta do fato.</p>
<p>- Nossa, você por aqui! Quanto tempo! &#8211; e imediatamente repreendeu-se, pensando “Será que não tinha nada pior para dizer?”. Um segundo depois, entretanto, pareceu lembrar-se de todo o relacionamento que tiveram – das discussões, em particular. Seu rosto tomou um certo ar de segurança e enfado. O dela permaneceu fuzilando-o.<br />
- Ai, que lindo! Ele é irônico! Quanto tempo, como vai você?</p>
<p>Falou como quem encontra um grande amigo, perdido há eras. Ele achou por bem ignorar o tom sarcástico da voz dela, na tentativa de conduzir o papo para outra situação além da que se avizinhava, potencialmente catastrófica:</p>
<p>- Eu vou bem, obrigado. E você?</p>
<p>Não deu certo. Ela permaneceu séria, falando gravemente, salivando fel:</p>
<p>- É mesmo muita cara-de-pau da sua parte falar comigo como se não tivesse acontecido nada!</p>
<p>Olhou em volta, buscando ajuda. Não havia ninguém, teria que se defender sozinho. Ela continuou.</p>
<p>- Você não teve a decência de me ligar!<br />
- E por que eu teria que te ligar?<br />
- Não me surpreende que você não saiba.</p>
<p>Esse ataque ferino aos seus conhecimentos das normas de interação com membros do sexo oposto – cartilha que já deveria ter sido escrita há eras, embora seja pouco provável que alguém a seguisse, visto que as variáveis são elevadas à enésima potência – tornou-o subitamente ofendido, acabando com seu ar simpático e jogando-o numa posição de contra-ataque:</p>
<p>- Foi você que terminou comigo!<br />
- Por isso mesmo!</p>
<p>Coçou a testa, reprimiu um palavrão que chegou a sair pela metade: …taqueopariu! Para ele, aquilo não tinha muita lógica. Considerava que o dispensado não deveria tornar a ligar, essa era uma obrigação do dispensante, quer por caridade, quer por vaidade (a fim de verificar o estrago causado por sua decisão). Ela, entretanto, seguia outro tipo de regra:</p>
<p>- E você não foi homem suficiente pra aceitar.<br />
- Como assim, não aceitei? Aceitei perfeitamente bem. Você disse “fim”, eu pensei “certo, então é o fim”. Toquei a vida.<br />
- Você entrou em ne-ga-ção! &#8211; falou sílaba por sílaba em tom de voz elevado, como se ele fosse surdo. Ou idiota. Ou um idiota surdo. Ele finalmente largou o jornal sobre o mármore frio da mesinha, aborrecido. O café esfriava. O cigarro da boca fora para a mesa, daí rolara para o colo dele, donde fora para o chão, pela perna esquerda estendida.<br />
- Não foi ne-ga-ção, foi a-cei-ta-ção.<br />
- E meus e-mails? Você recebeu?<br />
- Lógico que recebi.</p>
<p>Os olhos dela encheram-se de lágrimas. Disse com voz irritada e chorosa:</p>
<p>- E por que nunca respondeu?<br />
- Você disse claramente em todos eles que não queria que eu respondesse!<br />
- Mas você não entende nada? É incapaz de captar uma mensagem? Isso não era motivo para você ficar em silêncio!</p>
<p>Ele baixou a cabeça, correu as mãos pelos cabelos. Depois de seis meses de término, de paz, de distância e tranqüilidade, ali estavam os dois, em plena sessão de descarrego. Ele odiava sessões de descarrego, ela parecia adorar. Perguntou, como quem pede piedade:</p>
<p>- O que você quer de mim, afinal?<br />
- Minhas cartas.<br />
- Quer que eu devolva suas cartas?<br />
- Não seja idiota! Quero saber se você recebeu!<br />
- Ah! Também recebi.<br />
- E leu?<br />
- Li.<br />
- Leu todas?<br />
- Sim, li todas as suas cartas. Todas, todas.<br />
- Do começ…<br />
- Do começo ao fim!<br />
- E não vai dizer nada sobre o que eu escrevi pra você, as coisas que eu disse, minhas razões pra desistir da gente? Não vai me deixar saber o que você achou?<br />
- Parafraseando Roberto Carlos:<br />
- O cantor?<br />
- O cantor.</p>
<p>O olhar dela se acendeu com esperança. Ele, sempre tão insensível, estava na iminência de dizer algo realmente romântico, talvez até melodioso. Ele respirou fundo, soltou o ar lentamente, olhou-a nos olhos e, munido de toda sinceridade, soltou:</p>
<p>- Ri muito, bicho.</p>
<p>Ela ficou em silêncio por dez segundos. Dez segundos que duraram meia-hora. Uma hora. Quarenta dias e quarenta noites. Ficaram assim, olhos fixos um no outro. Ela, com toda a delicadeza de sua natureza feminina, esticou a mão, pegou a xícara de café e derramou no colo dele, que, temendo uma queimadura, assustou-se, quase caindo da banqueta (salvou-o a perna esquerda, firme no chão). À toa, porém: o líquido esfriara.<br />
Entre os dentes, querendo chorar, querendo gritar, querendo arrancar os cabelos &#8211; dela e dele -, ela sussurrou:</p>
<p>- E não volte a me procurar!</p>
<p>Ele ficou ali, enquanto ela se afastava pisando com força. Finalmente deu-se conta da ausência do cigarro na boca. Pegou outro, sequer pensou em procurar o primeiro. Olhou de novo para a garçonete.<br />
Ela se aproximou, sacou um isqueiro e acendeu o cigarro dele, usando-o em seguida para acender o seu. Soprou ruidosamente a fumaça do primeiro trago, olhou para a moça que sumia à distância, depois novamente para ele:</p>
<p>- Mulher é tudo louca, né?</p>
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