Dando as cartas sem piedade
16. January. 2009 por O Observador
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Como se conheceram? Dizia ela que já o conhecia. Afirmava que já o vinha cobiçando há muito tempo, desde os tempos de baladas da faculdade. A fama dele era irretocável, as garotas da faculdade faziam de tudo para ter alguma coisa com ele, o que não era nada fácil. Ele gostava de um bom papo, tinha bom gosto, era seletivo e transava com quem queria. Tudo dependia exclusivamente dele “querer” e não delas. Isso vinha desde o tempo de escola, era na verdade da raça “Observador”. Conhecia as mulheres como ninguém e sabia a hora certa de abordar uma mulher.
Mas quem passou a observá-lo foi ela. Loira de olhos claros e estonteante. Elegante, sabia como se produzir, desde o sapato até a lingerie. Falava bem e era muito convincente nas suas opiniões. Gostava de passar pelos corredores da faculdade jogando charme para os meninos. Parava o trânsito literalmente. As meninas a achavam vulgar, esnobe e com pinta de vagabunda, coisas de dor de cotovelo de mulher. Ela podia.
Até um dia em que a “Sra. Encruzilhada” os colocou estudando lado a lado. Não sei ao certo quem decidiu falar com quem. No primeiro contato ele demonstrou toda a sua experiência na arte da sedução. Ela por sua vez esbanjou sensualidade.
Em pouco tempo os dois eram um só. Eventos, festas, baladas, viagens … tudo era feito em conjunto, era um casal invejável. Na cama então … faziam de tudo: transavam, trepavam, faziam amor … ele comia ela e ela comia ele – isso para não discriminar nenhum dos nossos leitores, afinal de contas uns transam, outros trepam, alguns fazem amor ou comem … enfim papos para horas. Era fogo no palheiro e não precisava muito, teve uma vez numa festa junina, num sitio de um conhecido, lá pelas tantas da madrugada, em meio à neblina que se formou, ele fez questão de transar com ela no meio da quadra de tênis.
Parecia que ela o havia laçado de vez, o cara mais cobiçado da faculdade. Quando passavam pelos corredores ela era fuzilada pelas concorrentes. Ele, por sua vez, deixou de exercer o seu direito de novas conquistas e tudo demonstrava que seria definitivo. Era incomum ver um macho de tão nobre estirpe, ser dominado tão facilmente. Frente às amigas ela se vangloriava de tê-lo conquistado. O que ele achava? Para ele estava tudo bem, estava curtindo e saboreando todos os momentos. Os amigos que o tinham como parâmetro – como eu – não entendiam muito bem a situação, mas respeitavam a sua decisão.
Porém, o retorno de sua ex-namorada dos EUA, ia colocar as coisas em seus devidos lugares. Na verdade ele estava pouco ligando pelo retorno dela. Mas a Sra. Exuberante fez da situação um verdadeiro “tsunami” e ele passou a viver o inferno na terra.
As mesmas perguntas passaram a ser feitas todos os dias, depois de manhã e noite, em seguida de manhã, de tarde e de noite, e até quando estavam transando. A criatividade dela em elaborar novas questões em cima das mesmas questões era digna de alta insanidade:
“Como você soube que ela voltou?
Quem te contou quando ela voltou?
Ela te ligou?
Ela foi te ver?
Ela te procurou?
Você a procurou?
Você falou com ela?
Você ligou para ela?
Você esteve com ela?
Você pensou em vê-la?
Vocês estiveram juntos?
Você não esteve com ela?
Você pensou em ligar para ela?
Você pensou em procurar por ela?
E ela, será que ela vai te procurar? Te ligar? Te ver? Será que ela quer transar com você?”
E mesmo recebendo negativas ela sentenciou como “Sra. da Situação”: “Olha aqui, você vai ter que escolher entre eu e ela!? E quando você decidir você me procura.” Realmente ela teve um surto. Alguns acham que ela enlouqueceu. Mas não adiantava falar com ela, não adiantava argumentar com ela, não adiantava sugerir ou aconselhar, não adiantava nada. Ela estava irredutível na sua decisão.
Na verdade ela não imaginava o que estava fazendo e com quem estava lidando. Para quem assistia a tudo, do lado de fora, percebeu que ela estava “cutucando a onça com palito de sorvete”. Ele, por sua vez, estava impassível, era avesso a novela mexicana e diante da situação apenas disse: “É isso que você quer? Então ok, eu vou decidir”.
O tempo passou. Ele evitava tocar no assunto, não saia com os amigos e decidiu apenas “observar”. Ela por sua vez dizia que sabia qual seria a decisão dele, falava abertamente que ele ia escolher ficar com ela. Ele continuava a “observar”, na espreita, nas sombras … Ele e seus pensamentos. Ela certa da resposta.
O tempo passou.
Alguma coisa estava para acontecer, tudo por causa de conversinhas que davam conta que ele havia tomado uma decisão. Definitiva é claro, como todas as que ele tomava. Criou-se uma expectativa em torno dessa situação que há tempos não se via. Quem lançou? Ninguém sabia dizer com precisão. Se o intuito era alcançar a Sra. Toda Poderosa, deu certo. E quem o conhecia sabia que ele não dava ponto sem nó.
O tempo parou.
Como de costume lá estava ele, na lanchonete da faculdade, fazendo um lanche. Parecia ter sido combinado. Por uma das portas ela entrou e propositalmente se colocou num balcão de frente para ele. Alguns tiveram o prazer de assistir. Ele não mexeu um dedo, somente levantou os olhos por cima dos óculos escuros. Os olhares se cruzaram. Ele simplesmente voltou a saborear seu lanche. Insatisfeita e com ar de ansiedade ela pegou suas coisas do balcão e a passos rápidos se colocou ao lado dele.
Com ar de soberba começou a falar: “Oi tudo bem?”. Ela já imaginava desfrutar dos beijos dele, de sua companhia, das transas loucas e calorosas… O coração dela parecia que ia sair pela boca, parecia que ia explodir e a mão transpirava mais que o de costume. Enquanto ele se mantinha imóvel ela continuou a falar: “Me disseram que você tomou uma decisão sobre nós… é verdade?” A última palavra quase não saiu.
“É verdade, tomei sim”. Uma onda de calor tomou o corpo dela enquanto ele se virava para olhá-la bem nos olhos.
O tempo continuava estático.
“Eu não vou ficar nem com você, nem com ela”. Sua voz grave ecoou. Ele não gritou e não falou alto. Seus olhos pareciam em chamas e as palavras pareceram sair entre ranger de dentes. Foi um verdadeiro soco no estomago. Ela não tinha como reagir e não reagiu. Ele não se despediu, pegou suas coisas e saiu da lanchonete. Do lado de fora uma morena sensacional o aguardava, beijou-a na boca, voltou-se para trás, olhou-a novamente por cima dos óculos e acenou se despedindo.
O tempo voltou a correr.
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Não basta só “observar”, além de “observar” é preciso sangue frio e saber agir.
Nunca tenha piedade.


Nusga…
É,é muito bom poder dar as cartas. Na verdade é uma das nossas prerrogativas mais simples, que não exercemos, é claro.
Quanto a ser sem piedade, eu diria que a lógica não liga para isso, então, porque ligaríamos?